1

Coco-Verde e Melancia

é uma história que alguém

quer sabê-la mas não sabe

o começo de onde vem

nem sabe os anos que faz

pois passam trinta de cem

2

Coco-Verde era filho

de Constantino Amaral

morador no Rio Grande

mas fora da capital

pois sua casa distava

meia légua de Natal

3

Porém seu nome era Armando

como o povo o conhecia

mas a namorada dele

essa tal de Melancia

a ele por Coco-Verde

chamava e ninguém sabia

4

Então dessa Melancia

Rosa era o nome dela

porém Armando em criança

se apaixonando por ela

para poder namora-la

pôs esse apelido nela

5

Portanto, seu nome é Rosa

seu pai Tiago Agostinho

de origem portuguesa

do pai de Armando vizinho

seus sítios eram defronte

divididos num caminho

6

Quando Rosa fez seis anos

e Armando a mesma idade

os pais de ambos trouxeram

um professor da cidade

para instruir as crianças

7

Fizeram logo uma casa

sobre um alto, nela então

Rosa e Armando começaram

a receber instrução

junto com outros meninos

uns vizinhos outros não

8

Nessa escola começou

Armando a namorar Rosa

pois ela além de ser rica

era bastante formosa

inteligente e cortez

muito séria e carinhosa

9

Rosa tinha por Armando

uma grande simpatia

de forma que quando o mestre

dava nele ela sentia

o mesmo fazia Armando

quando ela padecia

10

Ao completarem dez anos

tanto Rosa como Armando

em lousas um para a outro

viviam se carteando

mas disfarçando que estavam

nota de carta apostando

11

Depois Armando temendo

que o mestre os descobria

figindo que amava as frutas

e nas notas que fazia

tomou como namorada

a chamada Melancia

12

Rosa também pelas frutas

fingiu amor desmedido

e tomou o Coco-verde

já para seu pretendido

porém o “Coco” era Armando

ele estava prevenido

13

Rosa estava prevenida

que a melancia de Armando

era ela, então assim

brincavam se carteando

diziam aos outros que estavam

notas de cartas apostando

14

Então defronte a escola

tinha uma pedra isolada

ficando ao lado direito

do poente da estrada

e dela não se avistava

dos pais de Rosa a morada

15

Armando muito sincero

quando da escola voltava

bem ao pé da dita pedra

satisfeito ele a esperava

e dali para diante

ele a Rosa acompanhava

16

Rosa ao fazer doze anos

o mestre um dia calado

levou todos os meninos

pra um salão reservado

ficando então as meninas

no seu salão costumado

17

Armando quando se viu

no salão longe de Rosa

não deu lição nesse dia

por não vê sua mimosa

o mestre então castigou-o

com sua mão rigorosa

18

Voltou Armando de tarde

no pé da pedra esperou

por Rosa quinze minutos

mas ela ali não chegou

e Armando vendo a demora

pra casa triste marchou

19

Mas Rosa no outro dia

deixou seus pais almoçando

e caminhou para a pedra

onde esperou por Armando

e quando Armando chegou

encontrou ela chorando

20

Armando lhe perguntou:

Rosa, diz-me o motivo

que te fez em me deixar

tão tristonho e pensativo?

diz-me se o nosso amor

já morreu ou inda está vivo?

21

Rosa chorando lhe disse:

foi o nosso professor

que não deixou-me voltar

por causa do nosso amor

dizendo que foi meu pai

que a ele fez sabedor

22

Disse-me mais que meu pai

lhe disse que não convinha

leu andar junto contigo

pois estou quase mocinha

portanto, só me deixasse

vir da escola sozinha

23

Armando lhe respondeu:

pois a coisa está ruim

como eu não posso ver

da nossa amizade o fim

vou ausentar-me desta terra

pra descansares de mim

24

– Amanhã em vou embora

para nunca mais voltar

pois minha presença aqui

talvez te faça penar

e mesmo não me convém

ver-te sem poder-te amar

25

Disse Rosa: tu assim

trazes pra mim um perigo

porque se fores embora

eu hei de acabar comigo

pois a vida só me serve

se eu me casar contigo

26

– Hoje não vejo quem tenha

força capaz de fazer

meu coração desprezar-te

antes prefiro morrer

pois pra tudo existe jeito

e o jeito eu vou dizer

27

– Esta pedra de hoje em diante

será pois a nossa agência

poderemos deixar nela

munidos de paciência

todo dia um para o outro

sincera correspondência

28

– Porque nosso amor precisa

nutrir as suas raizes

no coração um do outro

para vivermos felizes;

eis ai o meu destino

vê agora o que me dizes

29

Armando lhe respondeu:

pois deixo de ir-ma embora

porque o meu coração

te consagro nesta hora

e para que me acredite

eu vou te jurar agora

30

– Eu juro a Deus que jamais

te deixarei esquecer

um só instante em meu peito

e juro também sofrer

por ti qualquer desventura

que alguém queira trazer

31

– Juro mais que te pertencem

minh’alma, meu coração

e juro também por ti

desconhecer a razão

porque para defender-te

me sujeitarei a prisão

32

Rosa disse: em também juro

por ti ser forte e ativa

e o meu amor durar sempre

como esta pedra nativa

se eu não casar contigo

juro a Deus não ficar viva

33

– E se meu pai não quizer-te

como genro, inda te digo

daqui do pé desta pedra

juro a Deus fugir contigo

juro mais que meu amor

não obedece castigo

34

Nisto bateu a sineta

da escola, convidando

a entrada dos alunos

pois todos iam chegando

Rosa ai marchou com pressa

de parelha com Armando

35

Então depois desse dia

Armando quando passava

na pedra para a escola

uma carta encontrava

e Rosa encontrava outra

à tarde quando voltava

36

Quando Rosa ficou moça

se tornou inda mais bela

e Armando também rapaz

consultou então com ela

o que devia fazer

para pedi-la ao pai dela

37

Então Tiago Agostinho

não ficou surpreendido

pois que Rosa amava Armando

ele já tinha sabido

logo foi franco em dizer-lhe

que estava feito o pedido

38

Armando voltou contente

Tiago Agostinho então

procurou saber de Rosa

qual a sua opinião

se ela estava de acordo

receber de Armando a mão

39

Rosa lhe disse: meu pai

estou de acordo, sim

porque nasci para Armando

e Armando nasceu para mim

e digo logo ao senhor

que nosso amor não tem fim

40

Tiago disse consigo:

a cousa está enrascada

e se eu for muito ativo

afundarei a jangada!…

então respondeu-lhe rindo:

breve estarás casada

41

Combinou com sua esposa

com muita sagacidade

um jeito para acabar

aquela grande amizade

mas queria fazer isto

sem demonstrar má vontade

42

Mandou convidar Armando

na tarde do mesmo dia

e disse em vista dos dois

que o casamento faria

só com um ano depois

pois era quando podia

43

Logo Armando concordou

Rosa concordou também

Tiago disse consigo:

este acordo me convém

tenho tempo pra lutar

e espero sair-me bem

44

Com 2 meses depois disso

ele falou pra comprar

o sítio de Constantino

para Armando se mudar

se fazendo muito calmo

pra ninguém desconfiar

45

Então o pai de Armando

o Constantino Amaral

concordou vender o sítio

depois com o capital

buscar se estabelecer

com uma loja em Natal

46

Lhe disse Armando: meu pai

se me tiver como amigo

deixe de vender o sítio

pois como homem lhe digo

só sairei desta terra

levando Rosa comigo

47

– Depois do meu casamento

meu pai poderá vender

seu sítio, pois dessa vez

não terei o que dizer

mas agora fará isso

se não quiser me atender

48

Amaral lhe respondeu:

meu filho estás atendido

pois inda com sacrifício

eu te atendia o pedido

quanto mais que nosso sítio

ainda não está vendido

49

Tiago Agostinho vendo

que não podia comprar

o sítio de Constantino

para Armando se ausentar

procurou por outra forma

o casamento acabar

50

Chamou Armando e disse:

Armando, o teu casamento

não quero mais demorá-lo

vamos dar nosso andamento

e pra poupar-te as despesas

um negócio te apresento

51

– Eu tenho uns cortes de panos

arrematados num leilão

e queria que tu fosses

vende-los lá no sertão

com o lucro tu farás

toda tua arrumação

52

Armando logo aceitou

o negócio esclarecido

dizendo então que ficava

a Tiago agradecido

e com três dias partiu

de fazenda bem sortido

53

Tiago tinha dois filhos

sendo casado o primeiro

residiam em Mamanguape

então o filho solteiro

numa loja do irmão

servia como caixeiro

54

Assim que Armando partiu

Tiago Agostinho então

escreveu para seus filhos

com a maior precaução

dizendo que um viesse

executar a traição

55

Com quatro dias, a noite

chegou o filho solteiro

pronto para executar

o plano de traiçoeiro

Tiago antes da carta

interrogou-o primeiro

56

Pois perguntou ao filho:

o que tu andas fazendo

estas horas por aqui?

parece que vens correndo?

disse o filho: é sua nora

que deixei quase morrendo

57

– Meu irmão foi quem mandou

eu vir lhe participar

o estado da mulher,

para o senhor lhe mandar

a nossa irmã Rosinha

pra da cunhada tratar

58

– Com uma grande agonia

ontem quase ela tem fim

disse o doutor: ela morre

se chegar ter outra assim;

e meu irmão não confia

seu trato a gente ruim

59

– Então fretei uma barca

por desmedido valor

a qual se acha no porto

esperando quando eu for

e quero levar Rosinha

veja o que diz o senhor

60

Tiago lhe respondeu:

em mando que Rosa vá

e fico com muita pena

de não ir com vocês, já

porém depois de amanhã

talvez eu chegue por lá

61

– Mas mando logo uma carta

por vocês neste momento

onde meu filho verá

que fico em grande tormento

por saber que minha nora

está nesse sofrimento

62

Quando a carta estava feita

Rosa estava preparada

e acompanhada do mano

partiu em marcha apressada

pretendendo tomar a barca

As quatro da madrugada

63

Assim que os dois embarcaram

o remador que sabia

remou para Mamanguape

com prazer e alegria

aonde chegaram em paz

na manhã do outro dia

64

Quando no ponto saltaram

Rosa com o irmão dela

encontraram dois cavalos

um pro mano e outro pra ela

e um para o bagageiro

com cangalha e não com sela

65

O irmão montando Rosa

ela disse: eu entendia

que do porto a Mamanguape

meia légua não seria!

Lhe disse o irmão: é longe…

e montou sem mais profia

66

A cavalo em Mamanguape

chegaram ligeiramente

disse o irmão para Rosa:

isso aqui é S. Vivente

o bagageiro afirmou

e logo tomou a frente

67

Da cidade de Mamanguape

Rosa nada conhecia

e por isso acreditou

no que o irmão lhe dizia

e açoitando o cavalo

caminhou com alegria

68

As dez horas se serviram

de doce com queijo e vinho

e ao por do sol, o irmão

à Rosa disse baixinho:

Rosa, alviçaras, chegamos

na casa de teu padrinho!

69

Rosa bastante espantada

lhe respondeu: é mentira

meu padrinho aqui não mora

e se mora me admira

eu ter vindo a Mamanguape

e me achar em Guarabira

70

Mas logo no mesmo instante

ouviu a voz do padrinho

que dizia duma porta:

viva! chegou meu sobrinho

trazendo minha afilhada

pra sossego de Agostinho!

71

Vou deixar Rosa um instante

e dizer primeiramente

quem era o padrinho dela

e porque ficou contente

para ninguém não dizer

que não ficou bem ciente

72

Esse padrinho de Rosa

era irmão do pai dela

seu nome, Pedro Agostinho

sua esposa Florisbela

e foi um dos mais antigos

que Guarabira viu nela

73

Então Tiago Agostinho

combinou com seu irmão

botar Rosa em sua casa

por meio duma traição

e para poder fazer

mandou Armando ao sertão

74

Rosa que não conhecia

de Guarabira o caminho

deixou-se ir inocente

para a casa do padrinho

onde lhe veio a lembrança

dum ardil mais que mesquinho

75

Por isso quando ela entrou

na casa disse ao irmão

que lhe quisesse explicar

daquilo tudo a razão

pois lhe estava parecendo

um golpe de traição

76

Lhe disse o irmão: Rosinha

vou te dizer a verdade

é pra tu deixares aqui

de Armando aquela amizade

pois meu pai só deu-lhe o sim

temendo uma falsidade

77

– Para que tu não fugisse

meu pai deu a ele o sim

porque se assim não fizesse

a coisa estava ruim

pois uma amizade grande

é bem custoso ter fim

78

– Por isso ele ordenou-me

eu te trazer inocente

para aqui, porque aqui

jamais encontrarás gente

por quem tu possas mandar

fazer a Armando ciente

79

Logo Rosa respondeu-lhe:

porém meu pai bem podia

quando Armando me pediu

dizer-lhe que não queria

porque um homem de bem

odeia a hipocrisia

80

– Se eu soubesse que meu pai

era assim tão fementido

jamais deixaria Armando

ter minha mão lhe pedido

visto que aeu não era digna

de te-lo como marido

81

– Para mim comete um crime

a filha dum traiçoeiro

que quer se fazer esposa

dum honrado cavalheiro

pois a honra é luz nas trevas

a traição não tem luzeiro!

82

– Portanto, eu não deveria

encher de amor um senhor

filho de um pai honrado

sendo o meu um traidor

terei remorso por isto

vergonha, susto e temor

83

– Ma se ainda ver Armando

juro dizer-lhe a verdade

que não serei dele esposa

devido esta falsidade

mas serei dele cativa

se ele tiver-me amizade

84

Agora encerro este assunto

porque preciso dizer

o que foi que o pai de Rosa

procurou logo fazer

na hora que ela saiu

antes do dia romper

85

Assim que Rosa saiu

o pai pegou um vestido

dos que ela em casa deixou

e fê-lo em sangue embebido

dum cabrito que sangrou

lá num recanto escondido

86

Fazendo o vestido em tiras

desceu um despenhadeiro

até chegar num riacho

aonde havia um banheiro

então semeou as tiras

ao poente do ribeiro

87

E com o resto do sangue

do cabrito que sangrou

ele encostado ao banheiro

a maior porção jogou

depois perto e mais longe

outras porções derramou

88

As seis horas da manhã

ele muito disfarçado

fez uma grande balburdia

gritando desesperado

dizendo ao povo que Rosa

um tigre havia pegado

89

Logo todos os vizinhos

acudiram com presteza

seguindo em busca do tigre

com desmedida afoiteza

porque a morte de Rosa

os sinais davam certeza

90

Com bons cachorros de caça

os homens da vizinhança

a mata o dia passaram

com sede de uma vingança

e não encontrando indício

voltaram sem esperança

91

Tiago Agostinho tinha

um negro de confiança

no mesmo dia de tarde

chegou-lhe à sua lembrança

de mandar o dito negro

enganar a vizinhança

92

No outro dia de tarde

o negro saiu dizendo:

que tinha andado na mata

e num lugar mais tremendo

encontrou o corpo de Rosa

porém num estado horrendo

93

Então Tiago Agostinho

com as mãos cobrindo a face

em presença dos vizinhos

disse ao negro que voltasse

ao lugar que estava o corpo

e lá mesmo sepultasse

94

Uma sepultura falsa

naquela mata esquisita

e negro formou sozinho

com precaução inaudita

e no dia imediato

houve ali grande visita

95

Logo Tiago e a esposa

vestiram luto fechado

e se espalhou a sinistra

notícia, pra todo lado

até que Armando sabendo

voltou bastante vexado

96

Quando chegou foi à cova

em visita fazer

na cova deu-lhe um desmaio

que andou perto de morrer

passou depois oito dias

sem quase nada comer

97

Com um mês não parecia

coitado, ser ele Armando

pois não comia e passava

noites inteiras vagando

nas estradas sem destino

tristonhamente chorando

98

E na pedra onde Rosa

amor lhe havia jurado

uma noite muito tarde

ele na pedra ajoelhado

derramou mais duma hora

o seu pranto amargurado

99

Depois de ter pranteado

tristonho balbuciou

dizendo: neste lugar

foi que Rosa a mim jurou

seu amor, uma manhã

mas coitada, se acabou!

100

– Portanto, o dever me ordena

ir naquela mata escura

e tirar os ossos dela

de dentro da sepultura

e em cima deles matar-me

para cumprir minha jura

101

Armando ai como um louco

para a mata caminhou

chegando na cova de Rosa

a terra fora jogou

e ficou mais que surpreso

já quando nada encontrou

102

Sem chorar refez a cova

consigo mesmo a dizer:

aqui existe um mistério

e se Deus me favorecer

haverei de desvendá-lo

pois é este o meu dever

103

Noutro dia disse ao pai:

meu pai me faça um pedido

de vender seu sítio agora

pois eu estou resolvido

ir morar no Piaui

visto Rosa ter morrido

104

Amaral foi a Tiago

vendeu o sítio e saiu

e Armando de Tiago

tristonho se despediu

figindo chorar por Rosa

Tiago oculto sorriu

105

Armando no Piaui

disse ao pai: meu pai, agora

vou dizer-lhe um segredo

que o senhor ignora

olhe, Rosa não morreu

o certo qu’ela está fora

106

– O pai em minha ausência

preparou uma cilada

pois cavei a cova dela

dentro não encontrei nada

Amaral sabendo disso

teve uma raiva danada

107

Porém Armando lhe disse:

meu pai, não tenha vexame

pois Rosa aonde estiver

talvez ainda me ame

portanto, o senhor escreva

uma carta àquele infame

108

– Essa carta irá tarjada

lhe dizendo que morri

com um mês e oito dias

que cheguei no Piauí

e ele acreditará

sem mandar ninguém aqui

109

Como de fato, Amaral

para Tiago escreveu

uma carta onde mostrava

ser sincero amigo seu

narrando a morte de Armando

como melhor entendeu

110

Oito meses já faziam

que Rosa tinha saido

e que Aramando se mudara

ela não tinha sabido

como também da cilada

da onça haver lhe comido

111

Coitada, da terra dela

ela não via um vivente

embora que seu padrinho

já estava bem ciente

de tudo que se passou

só ela estava inocente

112

Rosa então se comparava

a uma prisioneira

procurava ninguém vê-la

e chorava a vida inteira

numa sombra projetada

por uma guabirabeira

113

Chorando dizia ela:

oh! meu Deus, oh! pai clemente

trazei conforto e consolo

a uma pobre inocente

que sem fazer mal a ninguém

vive a sofrer cruelmente!

114

– Consenti Senhor, que 1 anjo

produza um sonho a Armando

que me veja assim tão triste

constantemente chorando

pra ele ficar sabendo

que vivo nele pensando

115

Tiago tendo a certeza

que Armando tinha morrido

sorrindo disse à mulher:

fui muito bem sucedido

pois ganhei numa empresa

que me julgava perdido

116

Foi a todos os vizinhos

lhe dizendo a falsidade

que tinha feito com Rosa

devido aquela amizade

pois sabia que Aramando

morria na flor da idade

117

Logo mandou buscar Rosa

que com seis dias chegou

então foi quando ela soube

de tudo que se passou

depois da morte de Armando

a carta o pai lhe entregou

118

Rosa quando viu a carta

pôs-se a chorar sua sorte

ela quando leu a carta

deu-lhe um desmaio tão forte

que passou quase uma hora

sob o domínio da morte

119

Mas depois que melhorou

disse ao pai bastante irada:

meu pai, a morte de Armando

fez-me uma desgraçada

porém juro que não tarda

eu também ser sepultada

120

– O Senhor foi o culpado

desta desgraça fatal

com mentiras criminosas

fez Constantino Amaral

vender seu sítio e sair

fazendo a Armando esse mal!

121

– Mas juro, enquanto for viva

viver coberta de luto

pois a lembrança de Armando

tem no meu peito um reduto

juro não partir com outro

meu amor absoluto!

122

Rosa depois desse dia

tomada pelo desgosto

uma mortal palidez

apareceu no seu rosto

e de Santa Madalena

fez-se o modelo composto

123

Vendo os seus pais o desgosto

começaram a ter receios

então para distraí-la

empregavam muitos meios

até mesmo ordenando

que ela fizesse passeios

124

Mas Rosa não pesseava

se comprazia em chorar

vivendo sempre num quarto

sem querer se alimentar

a bem da alma de Armando

levava a vida a rezar

125

Armando no Piauí

sonhou chegar-lhe um rapaz

que tinha a vestes douradas

cabelos louros pra traz

e para fitar-lhe o rosto

ninguém seria capaz

126

Armando lhe perguntava

quem és tu? Donde vieste?

o rapaz lhe disse: eu sou

um mensageiro celeste

mas venho daquela pedra

onde uma jura fizeste

127

– Como eu fui testemunha

daquela grande amizade

que juraste a uma jovem

como doze anos de idade

venho então da parte dela

te dizer uma verdade

128

– Essa moça por ti vive

constantemente a chorar

e és tu que deverás

o pranto dela exugar

se não um dia o seu pranto

virá também te molhar

129

Armando nisso acordou

aflito e muito suado

parecendo ainda ouvir

uma voz dizendo ao lado

é necessário que cumpras

o que por ti foi jurado!

130

Armando disse chorando:

que coisa misteriosa!

pois bem, embora eu caia

numa falta criminosa

farei Tiago dizer

onde foi que botou Rosa

131

E sem demora embarcou

pro Rio Grande do Norte

destinado a encontrar Rosa

e toma-la por consorte

disposto a morrer lutando

a favor de sua sorte

132

Trouxe consigo um caboclo

homem sério e destemindo

então contou-lhe na viagem

o que tinha acontecido

e o amor dele por Rosa

de quando havia nascido

133

Tiago buscou fazer

na noite de S. João

um briquedo em sua casa

com grande reunião

para ver se Rosa achava

naquilo uma distração

134

Saltou Armando em Natal

nessa noite de S. João

e sobre a vida de Rosa

teve exata informação

então projetou fazer

a Tiago uma traição

135

Às onze horas da noite

quando Tiago Agostinho

servia seus convidados

algumas taças de vinho

viram dois vultos passar

ao poente do caminho

136

Não precisa que eu diga

que um vulto era Armando

e o outro era o caboclo

que vinha lhe acompanhando

e para se disfarçarem

caminhavam conversando

137

Armando logo avistou

sua amante idolatrada

muito magra e diferente

sem companheira, sentada

num banco em frente a fogueira

de luto desconsolada

138

Vendo Armando o seu estado

tão tristonha a meditar

sentiu tanta comoção

que começou a chorar

quis parar, mas o caboclo

mandou ele caminhar

139

Armando exugou os olhos

lhe veio então a lembrança

ir na pedra onde Rosa

ainda muito em criança

jurou de fugir com ele

com uma voz firme e mansa

140

Chegando Armando na pedra

depois de bem refletir

ensinou ao caboclo

como ele podia ir

levar um recado a Rosa

sem ninguém lá pressentir

141

O caboclo disse a ele:

pode ficar descansado

que eu já estudei um plano

para lhe dar o recado

e tenho toda certeza

que vai dar bom resultado

142

E sem demora seguiu

e logo chegou contente

no terreiro de Tiago

chamando o povo parente

se aproximou de Rosa

e lhe pediu aguardente

143

Quando bebeu aguardente

se aproximou da fogueira

dizendo então que cantava

cantigas de capoeira

o povo então fez com ele

animada brincadeira

144

Por fim o povo pediu

para o caboclo cantar

o caboclo bebeu mais

e depois de se sentar

com esta estrofe seguinte

entendeu de começar

145

– Eu venho de muito longe

do pé duma grande serra

acompanhado de alguém

mas não venho fazer guerra

vim dizer a Melancia

Coco-Verde está na terra

146

Rosa ouvindo essa conversa

teve um susto de tremer

e conheceu que o caboclo

procurava lhe dizer

um segredo que só ela

era capaz de saber

147

O caboclo conhecendo

que Rosa tinha ficado

como que sobre-saltada

olhando para o seu lado

resolveu a se calar

para ver o resultado

148

Mas logo Rosa lhe disse:

seu peito não é ruim

portanto cante de novo

faça esse pedido a mim

o caboclo fitou ela

e seguiu dizendo assim:

149

– Eu não tenho o que cantar

e outra que estou vexado

pois cheguei agora mesmo

inda não estou descansado

só vim dar de Coco-Verde

a Melancia um recado

150

– Se não fosse grande amigo

de alguém que ficou chorando

não me atrevia trazer

o recado que estou dando

Melancia, Coco-Verde

está na pedra esperando

151

Rosa fitando o caboclo

levantou-se sem demora

dizendo que ia dormir

o quarto fechou por fora

e para o lado da pedra

caminhou na mesma hora

152

Chegando perto da pedra

avistou um vulto junto

disse Rosa ao vulto:

responde o que te pergunto

se és anjo ou fantasma

se és vivo ou defunto?

153

O vulto lhe respondeu:

não tenha medo, querida

que sou Armando Amaral

a quem julgavas sem vida

venho plantar em teu peito

uma esperança perdida

154

Gritou Rosa: meu Armando

me escuta por caridade

eu te tinha como morto

meu Deus, que felicidade!

Jesus teve dó de mim

e descobriu-me a verdade

155

Logo Armando abraçou-a

louco de amor e chorando

Rosa sem poder falar

deu-lhe um beijo soluçando

quando viram o caboclo

vinha apressado chegando

156

Dando o braço Armando a Rosa

lhe disse: vamos querida

confia no meu critério

pois tu és a minha vida

Rosa só fez responder-lhe:

por Deus fui favorecida

157

Na mesma noite em Natal

saltaram em uma casa

sob a proteção dum vento

soprando de popa à proa

até chegarem em Macau

fizeram viagem boa

158

Saltando Armando em Macau

deu ligeiro andamento

a se esposar com Rosa

cumprindo seu juramento

e o padre da freguezia

celebrou o casamento

159

E escreveu a Tiago

uma carta que dizia:

“senhor Tiago Agostinho

me desculpe a ousadia

de eu carregar sua filha

para minha companhia”

160

“Eu sou Armando Amaral

a quem o senhor julgava

estar morto para sempre

como a carta lhe afirmava

aquilo foi para eu ver

se Rosa ressuscitava

161

Abrindo a cova da mata

descobri sua traição

porém gurdei o segredo

até nesta ocasião

porque já tenho a certeza

que não perdi a questão”

162

Vinte dias já faziam

que Rosa tinha saido

então ninguém não sabia

pra onde ela tinha ido

pelo qual já se julgava

que ela tinha morrido

163

Em busca dela Tiago

andava constantemente

mas para dar-lhe notícia

não encontrava um vivente

quando recebeu a carta

ficou de tudo ciente

164

Tiago muito zangado

pensando disse consigo:

é muito exato o adágio

usado no tempo antigo

“o amor quando é sincero

zomba do seu inimigo”

165

Então a felicidade

veio em socorro de Armando

enricou sem proteção

só com Rosa lhe ajudando

e Tiago arrependido

lhe pediu perdão chorando

166

Viveu Armando com Rosa

na mais perfeita harmonia

brincando Armando chamava

a ela de Melancia

e ela a ele Coco-Verde

mais a amizade crescia!

167

Já demonstrei nesta história

O amor o quanto é:

Só o amante sem fé

Esmorece sem vitória!

Conservem pois na memória

A opinião de Armando:

Mostrou seu amor lutando

E conseguiu triunfar

Luto só fez assombrar

O namorado nefando!

CRÉDITOS

Autor: José Camelo de Melo Resende

Pilõezinhos/Paraíba, 1885.

Rio Tinto/Paraíba 1964

Poeta e cordelista brasileiro. Um dos maiores autores da literatura de cordel brasileira, trabalhou como marceneiro e carpinteiro e a partir da década de 1920 iniciou-se nas poesias em folhetos

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