1

Quando o bode era doutor

E o cachorro advogado,

Andava tudo direito;

o mundo era governado,

A justiça muito reta

Ninguem vivia enganado.

2

o Leão sempre foi rei

Casado com a Leoa

Jacaré seu Secretario

Onça era grande pessoa

Mestre Sapo profesor

Na beira de uma lagoa.

3

Coelho chefe do mato,

Perú era viajante ...

o Galo, por ser tenor

Regia um café cantante

Macaco bicho do Rei

E urso rapaz amante.

4

O Porco era vagabundo

Passava o dia a beber

Por isso dele ninguem

Amigo queria ser ...

De toda festa Que havia

5

Um dia mestre Coelho

Fez unia festa no mato

Foi Cachorro e Jacaré

Gente de mais aparato

Finalmente todo bicho

Menos Porco e mestre Gato.

6

Rato tocava na flauta

Periquito no Rabecão

Caetitú no contrabaixo

Cururú no violão

Mucuim no clarinete

E Tatú no bombardão.

7

O Pinto ia com os pratos

o Carneiro com o tambor

Mosquito numa rabeca

Era quasi professor

Mestre Sapo como chefe

Ia feito regedor.

8

Quando o Porco soube disso

Ficou injuriado

Disse ao Gato — «Vamos lã»

Que eu garanto por meu lado

Ou nós entramos na festa

Ou o baile está terminado.

9

O Gato disse — Eu não vou

Porque acabo apanhando

o Porco lhe respondeu

Você bem está mostrando

Ser um Gato sem coragem

10

O Porco: chegando lá

Queria o baile invadir

Jacaré veio e falou

Mandou o Porco sair

Como não obedeceu

Foi preciso Onça intervir.

11

O Urso logo zangou-se

Por a sua namorada

Que era uma Anta bonita

E estava ali bem trajada

Por um Porco vagabundo

Ser assim desrespeitada.

12

Botaram o Porco p'ra rua

Mas ele tornou a entrar

Ahi já era demais

Impossível se aturar

Coelho puxou o revolver

Para no Porco atirar.

13

O Porco sacou da faca

Para matar ou morrer

Cotia teve um ataque

Paca queria correr

Galinha cahiu sem fala

Durinha sem se mexer.

2

Raposa quasi que morre

Mucura quebrou o braço

Lagartixa foi pisada

Quasi ficou em pedaço

A cabra ananhou de pau

14

Barata correu p'ra um canto

Não quiz a vida perder

Preguiça estava num pau

Disse: Foi bom não descer

Kangurú disse : — O diabo

Quem não trata de correr.

15

,

Girafa, como era grande

Estava tudo apreciando

Quando viu na sua costa

Arara estava trepando

Ema disse: — «Eu vou embora»

Coruja saiu voando.

16

Borboleta há muito tempo

Já tinha se escapolido

Mosca fez sua viagem

Levou piúm seu marido

Garça disse: vocês briguem

Mas não sujem o meu vestido.

17

Aranha estava tremendo

A Lesma morta de rir

Macaco olhou para um galho

Tratou logo de subir

Dizendo: Porco não trepa

"Aqui nunca pode vir".

18

Catraia gritava tanto

Que gritava a luz da lua;

Minhoca não acertava

Para que lado era a rua

Curica ficou sem pena 1

19

Finalmente a muito custo

Botaram o Porco p'ra fora

Já tinha dado e apanhado

Por isso disse: E agora

Antes que chegue a policia

Vou tratando de ir-me embora!

20

Com pouco veio o elefante

Que era então o Delegado

Com o camelo seu colega

Oficial reformado

E logo atraz o cavalo

No seu papel de soldado..

21

Coelho ahi contou tudo

Quanto tinha acontecido

Além disso como ruim

o Porco era conhecido

De forma que o Elefante

Deu tudo por resolvido.

22

Levou a queixa ao Rei Leão

Tal qual havia lhe dado

Atai foi expressa ordem

Do Porco ser procurado

Mas onde andava ele

Era o caso ignorado.

23

No outro dia, a Mucura

Tambem foi lá se queixar

Mostrou o braço p'ro o Rei

Que prometeu lhe vingar

Resolveram, então ir todos

O tal Porco procurar.

24

Foram a casa do Gato

Pois este era o seu amigo

Gato disse: — Esse sugeito

Tornou-se meu inimigo

Deu-me pancada e robou-me

Deixou-me torno mendigo.

25

Realmente o Gato estava

Com o corpo todo marcado

Não linha nem um vintern

o balai estava arrombado

E o Porco só lhe fez isto

Por não ter-lhe acompanhado.

26

Levaram o Gato doente

A presença do Leão,

E o Gato gemendo muito

Pediu tarnbem punição

Deste geito mestre Porco

Estava mal de informação.

27

Ganhava um conto de reis

Quem mestre Porco pegasse

Teria um ano de folga

o soldado que encontrasse

Fosse vivo ou fosse morto

o certo é que ao Rei levasse.

28

Andaram por mais de um mês

Sem saber-lhe o paradeiro

Até que um dia o acharam

Bêbado num atoleiro

Querendo dar no Mucuim

Por não ser seu companheiro,

29

O Elefante e o Cavalo

Deram a ordem do Rei

O Porco lhes respondeu

— Eu aqui de nada sei

Eu dentro da minha casa

Não sei que diabo é lei.

30

O Elefante então disse

— Olhe, eu sou delegado

Aqui que eu digo faz se

Tem de ser bem respeitado

Se você não for por bem

Mando leva-lo arrastado.

31

Eu irei (disse o Porco)

Mas só se for carregado

Não ponde dizer mais nada

Já tinha sido amarrado

E para a casa do Rei

Sem demora foi levado.

32

Quando chegou estava o Leão

Sentado numa cadeira

(Ao lado estava a Leoa)

Sua fiel companheira

Vendo o Porco muito sujo

Falou-lhe desta maneira.

33

— Porco imundo qual a causa

De tu seres valentão?

Bem sabes que ser valente

Pertence ao teu Rei Leão!

Tenho de ti muitas queixas

Só de ruim informação.

34

Formou o Leão um Jury

Para o Porco ser julgado

Foi quando este conheceu

— Que o caldo está entornado

A prova que a seu favor

Nem a Porca tinha votado;

35

Todos queriam que o Porco

Sofresse pena ruim .

Depois de tudo acabado

A contenda teve fim

Lavrou rogo a centença

Que foi deste geito assim:

36

- Como Justiça do Rei

SUA MAGESTADE O LEÃO

Manda fazer avisado

Que o Porco por valentão

Foi preso e está condenado

A trinta anos de prisão".

CRÉDITOS

Autor: Severino Milanes da Silva

Bezerros/Pernambuco, 1906.

Vitória de Santo Antão, 1956/1967 (controverso)

Foi alfaiate de profissão e poeta popular brasileiro.

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